quinta-feira, 17 de novembro de 2016

terça-feira, 8 de novembro de 2016

golpe



fotografia de frederico kilian
é  tempo o que tenho
minha filha
para te oferecer

é tempo o que tenho a entregar
para o amor

este coração rancoroso 
vendo o riso escorrer (lodoso) das bocas boçais
o ricto de sempre 

o tempo em conta-gotas
continua escorrendo
uma lágrima por segundo
no coração da Libéria, miha filha, na Eritréia,
em todo o mundo

nas construções precárias, nas lojas, 
nas ruas, nas esquinas, 
na faina dura da casa
com seus tentáculos de tempo

na tentativa e no erro, minha filha, 
me entrego fausto à vida 
seguindo a linha do asfalto
atravessando o viaduto
a pé, você sabe
procurando pelo mar 
em plena avenida


e os olhos vazios dos mortos 
os corpos empilhados
as frontes sujas de sangue

a palavra
quer engravidar
de sonhos, 
filha, 
de moinhos de vento


o lugar da memória, de mariana falcão

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

domingo



/Imagem de Odilon Redon/


domingo é o mais cruel dos dias
com seus azuis minguando pelo chão da
tard

e é mais cruel

(e mais mordaz)

a noite de domingo

na música arrastada do evangelho 

na fria e desleal face do espelho

domingo é um cativeiro


(São Paulo, maio de 2005)




segunda-feira, 17 de setembro de 2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

entulhos (II)


/Imagem de Grain Vert/

Bicoradas de pombos e corvos. Essa cidade é um pesadelo.

Seu Mário agitou-se a noite toda. Meteu-se com uma vara no viveiro dos bichos, em voz de cantilena os almadiçoou e os benzeu. Ouvi ele dizendo "Agradecido, meu filho, agradecido".

Duas da tarde e ainda de pijama. A montanha de papel sobre a mesa, esperando meu trabalho. Por que fui arrumar coceira? Ser professor já não vai muito bem? Agora se meter em servicinho de editora... Servicinho que nem paga pelo anonimato: guias de estudos, suplementos, roteiros de leitura, coisinha escroque. Ninguém nem devia de ler isso. E eu aceitando essa groselha pra ganhar um tostão.

Por que não foi fazer publicidade? Você escreveria assim mesmo, nas suas horas vagas. E cada ideia valeria nota preta.

Um escritor sem livro publicado? Investe mais nesses trabalhos, as editoras têm alguém por lá que acaba sempre farejando um talento.

Talento. Escrita dura, pedra sobre pedra, escrita sobre a escrita. O pêndulo com os pombos, seu Mário e as casas tortas desta rua, pesadelos neogóticos. As sombras e as raízes das árvores imensas, os homens de colete (pesadelo) perguntando o que você andou fazendo nesses últimos dias.

Nem uma linha. Nulla dies sine linea. Ah, ah.

As perguntas vão reaparecendo, entre a poeira dos dias, sempre. O que esses anos todos foram acumulando de entulho. Um pouco da Roosevelt. Um pouco do seu próprio corpo. Um pouco dos copos de outros onde já meteu seu beiço. Um pouco das coisas pelas quais você um dia lutou.

Nulla die sine linea.

Seu Mário existe na forma de um corvo. O corvo do poeta Poe. Aquele doido americano. Ou a coruja do amaldiçoado Paulo Honório.

E você, Professor, que se vire com seus pombos.

Podia levantar-se agora, espanar a papelada e digitar cinco ou seis laudas de um textinho irretocável. Por que não o faz? Vingança, preguiça, falta de ambição. E, ao contrário do que pensam (Seu Mário nunca saiba disso), você não escreve. E ao contrário do que pensam ("Um bacharel, vejam só"), você redige cartas.

Despojos dejetos desejos entulhos. Tudo o que o tempo devolve, espumando imundas ondas.

Olha o Pinheiro
Podre
Dentro de todo homem
há um rio virulento

(Antonio Cruz)

Os espaços apertados (quando era jovem adorava o termo "angusto", mas a vergonha restringiu seu uso a situações metalinguísticas) são propícios à perturbação mental. Isso está escrito em Crime e castigo. Esse é o tamanho do seu mundo.

Uma noite andando pela rua, achou que era Raskólnikov. Um pesadelo que durou dois meses; levou-o, a certa altura, a adormecer em túmulos. O coro dos entulhos, dos despojos, dos desastres.

São Paulo. 

Dormiu em bancos de praças, marquises, cinemas. E não porque não tinha casa. Chegou a andar três dias sem nenhum destino. Radial Leste. Cachoeirinha. M'Boi-Mirim. Qualquer nota. Qualquer preço. Qualquer troco. 

Seu Mário me diz que ele é neurótico, e que está vendo sua mulher ser devorada aos poucos pelo câncer. 

É a cidade toda, seu Mário, é todo o mundo. 

Ele é um homem sincero e me diz isso segurando seus cabelos com fúria. 

A pilha de papéis mede meus movimentos. Esse é um cronômetro. 

Eu sou o entulho. 


(São Paulo, janeiro de 2002)

entulhos (I)



/Imagem de Alfred Kubin/
  
Aferro-me à cama de novo, no abafamento do quarto, ouvindo as bicoradas dos pombos. O ruído ocupa noites inteiras, atravessando o silêncio, misturando-se aos sonhos.

Recentemente iniciaram a construção de um prédio aqui do lado. O barulho das máquinas, das sete às cinco, encobre o arrulhar maldito das aves. E olha, isso me acalma. Mas quando a noite vem a cantilena retorna, no mesmo tom lamentosa, até a manhã seguinte.

Fico fumando à beirada da cama, acreditando que a cabeça finalmente agora deva explodir e que a cidade explodirá também, se tudo der certo, em pouquíssimo tempo.

Acordo de manhã e não vejo nada disso. Está tudo igual, as máquinas trabalham, os homens da construção se agitam, cantam e atiram piadas, eu posso ouvi-las daqui. Os pombos são liberados para um passeio, ocupam duas longas extensões nos fios de eletricidade. E seu Mário sorri com o sol na lente dos óculos.

Esta noite outra vez não dormi. Três horas da tarde e estou ainda de pijama, sentado à cama, ou caminhando de um canto a outro do cômodo acanhado. Três passos médios e um curto, é o que ele mede. Às vezes, já esgotado, viro à esquerda e chego ao banheiro. Completo então cinco passos. E é isso. Me deito.

As criaturas vestidas de colete amarelo me observam, se aproximam, vêm andando com calma, elas me cercam. Logo percebo que é inútil fugir. Forma-se um círculo ao meu redor, as bocas se arreganham risonhentas, molengas, quase se desfazendo. À tentativa de um gesto, a mão calosa se gruda à minha pele. E depois dela vêm outras, e braços, e rostos. Um rosto. O riso acanalhado se aproxima. Boca de dentes tortos  e amarelos, falando lentamente: Seria um gesto só de caridade.

Eu então me exaspero, me agito, saio ao quintal, reviro-me, meto os pés em poças d´água, mandando tudo aos diabos.

Às vezes penso em andar pelas ruas, rodar por aí, procurar companhia num bar.

Mas aferro-me à cama, e já são onze horas, já são onze e trinta, já são onze e trinta e cinco minutos.

Neste momento Ernesto Campos faz seu número no palco. Ao grito intempestivo da platéia ele se arroga. E até as cinco e meia beberão cerveja, rum, engolirão porções engorduradas de comida, soltando risos roucos. Carina despirá, pouco a pouco, a saia preta, a cinta liga, chutará no ar seus sapatos, para o a plateia aflita. Um velho, um jornalista entusiasmado, duas dançarinas, as noites se repetem e viram dia, se entrecruzando.

Quente, o pequeno cômodo sem luz, meu gabinete e meu quarto, parece aos poucos se estufar.

Os pombos, Seu Mário, eu aviso – eles me bicam no escuro, isso é fato. Um bacharel – Seu Mário diz – Um bacharel, veja bem, um moço lido e estudado, professor de adolescentes de família, e passa os dias a escrever.

Escrever não, Seu Mário, eu acumulo entulhos.

As bicoradas no entanto não param. Seu Mário entra de madrugada com as mãos na cabeça: Professor, professor, me ouça: sou eu, sou eu que guardo entulhos!

Ele ergue novamente as mãos à cabeça: – Estão grudados em mim, Professor, eles são meus e fazem parte de mim, estão cantando em meu peito. Chegue aqui, que os ouça.

O arrulhar é um enrolar de vozes e de vezes, é um adiamento, uma desfaçatez, porque um pombo jamais será um bomba. Então essa chiadeira não vai dar, Seu Mário, nunca vai dar, em nada.

Também tenho pena deles.

Seu Mário sussurra, desesperado, os perdigotos voejando direto em meu rosto: - Compreenda, eles precisam de mim. Chegaram bem doentes. Não podem ser entulhos!

Ele termina por dizer: Eu sou um homem doente.

Depois se recolhe e é possível ouvir seus murmúrio percorrendo o quintal: “malditos! loucos!”

O arrulho é um motor que vara a madrugada, continuamente. Talvez eu devesse ir finalmente apertar a mão de Ernesto Campos. Grande talento, livros publicados, regularmente em cartaz. Talvez devesse reverenciar os pés de Marina. Um escritor, ela diria. Sem nem um livro publicado. Um desperdício.

As vozes cantariam samba talvez, com a convicção de ser um último adeus ao Bexiga. "Mas uma epopeia à Roosevelt" – um mal-humorado sopraria – "fica impossível sem Roberto Piva".

No fundo as vozes me aliviam pouco. Risos roucos são uma forma de arrulho, eu pelo menos penso assim. Baixo a cabeça no balcão. As mãos de Carina correm sutis e cruéis em meus ombros. Baixo a cabeça para que o sangue de alguém possa escoar sobre o meu, a minha cervical para uma alma feminina.

O som dos bumbos da fanfarra (há uma escola aqui em frente, eu não lembrava disso), e as bicoradas na cabeça. Seu Mário acocorado, com a cantilena: Professor, escreva por mim. Um gesto de caridade.

Levanto-me, fico parado na penumbra. Feixes de luz atravessam a janela.

Ao diabo tudo isso, calço os sapatos, atravesso as poças d’água.

Um gesto de caridade, Professor.

Alguém não é doente?


(São Paulo, janeiro de 2002)





terça-feira, 26 de junho de 2012

lusofilias

/Imagem de Manuel Figueira/


Puchinho encrencado no porto. O repuxar do mar espumando a vontade da ida.

Um poeta e um sabiá. Separações atlânticas, sincera sede das ilhas.

Puchinho e esse idioma malhado, sangue e fonema fecundos. Essa mistura. Pasárgada vista no céu de um labirinto, por entre grades frias, numa gaiola.

Puchinho a ver navios se revezando entre ficar e partir. O repuxar dos sonhos embalalados pelos batelões da Company Oil.

Rememorar pra fazer viva a encenação dos mortos?

Um chamo que solta afinal voa curto no espaço, ecoa fraco entre os vapores. Quiçá tenha caído no mar e escumado entre as ondas, buscando a outra Sãocente, salgando o sangue e também a saudade. Essa palavra transatlântica.



(São Paulo, outubro de 2011)


sexta-feira, 22 de junho de 2012

entulhos (VIII)


/Imagem de Alfred Kubin/


Tinha dito que sou um cão, um rato ou talvez um arrulho de pombo. Entre escombros. Tinha dito algo mais, mas prefiro por ora calar, apenas sentir, durante a noite toda, esse demônio que me morde, confundindo os sentidos. 


Quando voltei às aulas me disseram que eu estava muito frágil, cansado. Mandaram-me à enfermaria, foram delicados, mediram minha febre, deram-me água com açúcar. 


O copo de plástico parado em minha mão, as  minhas pernas pendentes sob a cama hospitalar. Pela janela eu vi o céu e isso me causou assombro. Como se o pesadelo pudesse ser infinito, como se todos agissem - me ajudando e me servindo - no fundo apenas pra manter meu sono intacto, os sentidos dormentes, as ideias viscosas, as palavras misturando-se à matéria pastosa grudada à minha boca, prendendo-se à língua. 

Por isso um gole d´água. 

Atravessei o pátio com passos moles de inválido.


- Sou um inválido, eu sei.- e atirei o copo ao chão - Talvez seja também repugnante, como diz lá a revista. 


Depois ganhei a rua, parei um táxi, fechei a porta, deitei-me. 


Aferrado à cama. 


Alguém disse (dentro do sonho?) que sou muito pessimista. 


O pessimismo é a esperança agonizante. 

(São Paulo, março de 2002)


quarta-feira, 20 de junho de 2012

resquícios do leste



"Para o júbilo 
o planeta
está imaturo"


Casa-Museu Maikóvski: a velhinha tenta me explicar que é proibido filmar o quarto onde, com um tiro de revólver, suicidou-se o poeta.
Inutilmente.

(Moscou, janeiro de 2007)


resquícios do leste





Manhã cinzenta na cidade, dez graus negativos: "Existe no homem um vazio do tamanho de Deus." 


(Moscou, janeiro de 2007)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

entulhos (V)



/Imagem de Alfred Kubin/

Espero que não venha.

Deixei prontinha a seleção de músicas. E até servi o vinho.

Se ela vier?

Passei a tarde toda ruminando isso, mergulhado em sombras, pestanejando.

A verdade é que não durmo há duas noites já e, durante o dia, caio em pequenos cochilos. Isso vem desde o maldito convite.

Os tempos eram bons, depois das férias, com seus dias longos e suas noites quentes, com todo o peso que se derramava sobre a minha cabeça para que eu de modo algum, jamais, pudesse descansar meu corpo. O silêncio não me era permitido, e na melhor das hipóteses tinha as vozes das aves. Gorjeios não; arrulhos.

Nem um dia sequer de descanso. Porque o trabalho da cabeça prosseguia, mesmo em dias sem Seu Mário, mesmo em dias sem seus pombos.

No entanto, as coisas iam bem porque as férias acabaram e alguns dias depois a luz da rua não me feria mais os olhos. Eu sobraçava a pasta, empacotado em meu batido paletó.

Vivi dias luminosos e, definitivamente, não: eles não feriam os meus olhos. Falei com os colegas, bebi café e tive parte em conversas realmente agradáveis.

Na sala de aula, tudo transcorreu muito bem. As aulas fluíam plenamente, o meu corpo, a minha voz, a articulação das palavras, tudo aos poucos ia se engrenando como deve ser. Os ralhos, as piadas, os momentos altos e os mais calmos, a dinâmica de sempre, os alunos em geral pessoas muito queridas.

No período da tarde, eu trabalhava nas lições, corrigia material, lia os jornais. À noite o sono chegava, me levava lentamente. Eu estava tranquilo, seguro, envolvido na cápsula dos dias.

Foi então que ela me apareceu, num feriado que teimava em prosseguir. Fiz a limpeza dos papéis, anotei os planos de aula, corrigi lições, depois fiquei rabiscando folhas em branco, achando que me entenderia com a literatura.

Bobagem... Dois cigarros apagados e coisa alguma que valesse reler.

Deitei-me, e uma nuvem branca formou-se em meu entorno, envolvendo-me em paz e doçura.

Mas pelas sete da noite acordei alvoroçado com os estrondos, fogos, buzinas, música alta pela vizinhança. Resolvi abandonar o quarto, passei água no rosto, vesti-me e logo em seguida já seguia pela rua. Senti fome, pensei em sentar em algum canto pela redondeza pra comer.

A nuvem branca continuava em meu entorno, e, embora atenuasse a balbúrdia de sons e de luzes - carros zunindo na avenida, com seus faróis devoradores, música e falação que me feriam os ouvidos -, formava agora, ela mesma, um turbilhão em seu centro. Senti tontura, sede, fraqueza nas pernas e resolvi sentar-me no primeiro bar que encontrei.

Pedi um sanduíche e uma garrafa de cerveja.

O sanduíche, devorado em poucas mordidas, fez-me bem, e a cerveja restabeleceu-me o ânimo. A nuvem branca dissipou-se e notei - já terminando uma nova cerveja - que alguma excitação me embalava e me fazia buscar com os olhos o movimento do ambiente, frequentado por homens de meia-idade, alguns poucos jovens. Era um lugar que eu conhecia de passagem.

Depois da terceira cerveja, resolvi me levantar e sentar-me ao balcão, ao lado de um grupo de pessoas mais novas que eu, uns rapagões fortes de vinte e poucos anos, umas mocinhas também, da mesma idade. Provavelmente eu quisesse entabular conversa, me expandir.

O assunto dos rapazes era-me inteiramente desinteressante. Falavam da Copa do Mundo e de "nossa" Seleção. As moças iam pelo mesmo tema, mas facilmente derivavam para outros, empolgando-se em especial com a beleza de outros países, outras paisagens, outros povos.

Aborreciam-me igualmente os comentários delas, porque eu nunca conheci país algum a não ser este, e há muito tempo não saía sequer dessa cidade, lugar horrível cuja existência sempre lutei para ignorar, vivendo sistematicamente num casulo. Eu já embarcava nessas conclusões, me recolhendo aos poucos à insignificância sombria, quando surgiu na rodinha uma nova presença.

Apresentou-se como Helena.

Tentei dizer a ela que nos conhecíamos - uma noite num apartamento, uma garrafa de vinho, alguns CD´s de jazz? - mas decidi ficar calado.

Ela sentou, serviu-se de uma garrafa, por acaso a que eu havia pedido, e perguntou:

- Você chegou há muito tempo?

Não havia nuvem branca em meu entorno, nem turbulência na rua. Havia só dois olhos e uma boca me falando, e os olhos e a boca eram a noite, a noite inteira, com todas suas nuvens e suas turbulências. Com suas turbinas.

Antes de sair do bar já muito bêbado, deixei meu endereço com ela, num guardanapo de papel.

Segui andando pela rua e desde então não pude conciliar o sono, e não me esqueço.

Ontem saí pela manhã e comprei vinho, frutas, pães e flores. Passei o dia imaginando sua chegada triunfal. Via um vestido florido, um par de sandálias, pedaços soltos de mulher. Arrumei e rearrumei os cantos todos do quarto, espanejei os livros.

Abro o vinho e começo a beber, vou esfarelando as corolas das flores. As frutas apodrecerão com os dias. E o pão, duro como pedra, como o rancor e o silêncio, será comido lentamente.


(São Paulo, verão de 2002)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

resquícios do leste




O Nievá, e a consciência torturante de um vazio que não se rende.


(São Petersburgo, janeiro de 2007)

entulhos (IV)


/Imagem de Alfred Kubin/


Mas nada que não me cansasse mais ainda a fala. Nada que não me fizesse sucumbir ainda mais. Era a voz de veludo, era a vez, era ela, era quem?

Era Helena.

A palavra roçou o meu rosto. Tanto assim que acordei, e senti o calor sufocante do dia, senti minha fome já há um tempo ignorada, a sede em minha boca cada vez mais intensa com o consumo do tabaco. No escuro (era meio-dia?) acendi um cigarro, e o máximo que pude fazer foi servir-me um gole d´água.

Muito bem, mais um nome inventado. Mais um rosto no escuro, mais uma forma intocável. Mais insularidade.

O outro como continuidade do mesmo. O outro como entreposto para um pórtico fechado. O outro como continuidade.

É assim a doença?

Asas e bicos nos sonhos.

Era assim?

Seu Mário diria que amar é reunir seres aflitos num viveiro. (Os pombos, o câncer). Eu ouviria isso, se pudesse escutar suas palavras, ou se alguém (eu jamais) pretendesse escrevê-las.

Seu Mário e seus arrufos, que imagino. Eu os ouviria, se me dispusesse.

A voz dos outros (mesmo a de Ernesto Campos, amigo meu) já me causa arrepios. Em geral, os sons que saem de boca humana se misturam em meus ouvidos e se convertem em acordes distorcidos, sopros agudos, cortantes, terríveis para minha audição a cada dia mais sensível.

Seria assim também a voz de Helena, com o passar do tempo? - esse tumulto ruidoso. Um ser aflito engaiolado? Como tudo o que se move do passado e deseja ganhar algum lugar entre estes dias, como tudo o que pretende lançar seus sinais de vida, respiração, hálito, feminilidade, coisas da ordem do espanto, vida em comum, luz do sol e dos postes, labaredas, restaurantes, crepitações, brilho de olhos.

Brilho de olhos de pássaro. Asas e bicos nos sonhos. Brilho e frescor de um jato d'água alcançado na pia, para afastar o tumulto.

Puta que o pariu, Seu Mário! Eu tenho todo dia enterrado esses pombos, sentindo em minha boca suas penas, a garganta ressentindo o sumo horrível dessa carne espumante.

E agora vem Helena.

Concentrado nesse nome, tento abafá-lo, convertê-lo em imagem obscura, numa mancha, um borrão, alguma forma de existência parecida com lembrança, com esta paralisia com que posso orquestrar - só assim - o espírito quieto do mundo.

(São Paulo, janeiro de 2002)